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Quando nada está exatamente errado, mas você sente que não está bem

11 de out.
3 min de leitura

Às vezes, não existe uma grande crise.

Nada aconteceu recentemente. O trabalho continua, as relações estão ali, a rotina funciona. Você acorda, cumpre suas tarefas, responde às mensagens, resolve o que precisa ser resolvido.


Mas percebe que existe um incômodo difícil de explicar. Uma sensação de cansaço, de distância, de insatisfação ou simplesmente de que alguma coisa não está no lugar.

E talvez a parte mais difícil seja justamente não conseguir apontar para o que está errado.

Quando existe um problema claro, costuma ser mais fácil entender o que estamos sentindo. Uma separação, uma perda, uma mudança importante, um conflito, uma dificuldade no trabalho. Existe algo para onde olhar.

Mas e quando não existe?


“Eu não tenho motivo para estar assim”


Como se fosse necessário encontrar um motivo suficientemente importante para ter permissão para não estar bem.

Mas sentimentos não funcionam necessariamente assim.

Você não precisa encontrar uma razão grande o bastante para que aquilo que sente seja considerado válido.


Nem todo sofrimento aparece como uma crise


É possível estar funcionando e, ao mesmo tempo, não estar se sentindo bem.

Essas duas coisas não são contraditórias.


Talvez o problema não seja uma coisa só

Nem sempre existe um acontecimento específico por trás de um mal-estar.

Às vezes, ele vai sendo construído aos poucos.

Uma rotina que exige demais.

Pouco espaço para descanso.

Uma cobrança que nunca diminui.

Relações nas quais você está sempre tentando corresponder.

Decisões que foram adiadas.

Coisas que incomodam, mas para as quais nunca houve tempo de olhar.

Expectativas sobre quem você deveria ser.

Pequenas frustrações que foram sendo acumuladas.

Nenhuma delas, isoladamente, parece suficiente para explicar o que você está sentindo.

Mas isso não significa que não tenham efeito.

O sofrimento nem sempre vem de um único acontecimento. Às vezes, ele aparece no acúmulo.


E existe outra possibilidade: você pode ter se acostumado

Talvez uma das coisas mais difíceis de perceber seja que aquilo que hoje parece “normal” pode estar exigindo muito de você.

Quando passamos muito tempo funcionando de determinada maneira, ela pode deixar de parecer uma escolha.

Você se acostuma a estar sempre ocupado.

A antecipar problemas.

A pensar demais antes de tomar decisões.

A tentar não decepcionar ninguém.

A se cobrar antes que outra pessoa faça isso.

A seguir mesmo quando está cansado.

A deixar para depois aquilo que sente porque sempre existe alguma coisa mais urgente para resolver.

Depois de algum tempo, fica difícil perceber a diferença entre estar vivendo assim e estar bem vivendo assim.


Então, o que fazer com esse incômodo?


Talvez a primeira resposta não precise ser encontrar imediatamente uma solução.

Antes disso, pode ser interessante tentar entender um pouco melhor o que está acontecendo.

Em vez de perguntar apenas:

“O que há de errado comigo?”

experimentar perguntas diferentes:

“Como tenho me sentido ultimamente?”

“O que tem exigido mais de mim?”

“Em quais momentos eu me sinto pior?”

“O que tenho feito no automático?”

“Existe alguma coisa que venho evitando perceber?”

“Minha rotina está parecida com a vida que eu quero viver?”

Não são perguntas para produzir uma resposta perfeita.

São perguntas para criar espaço.

Porque, quando não conseguimos explicar exatamente o que está acontecendo, existe uma tendência a preencher esse espaço com julgamentos.

“Estou sendo ingrato.”

“Estou exagerando.”

“Eu deveria estar melhor.”

“Preciso me esforçar mais.”

Mas talvez o primeiro passo seja justamente suspender um pouco essas conclusões.


Quando não existe um problema claro, ainda pode existir algo importante para escutar


Nem sempre vamos encontrar uma explicação imediata para aquilo que sentimos.

Talvez você ainda não saiba se está cansado da rotina, das expectativas, de uma relação, de uma forma de se cobrar ou simplesmente de sustentar tantas coisas ao mesmo tempo.

Tudo bem não saber ainda.

Compreender o que acontece dentro da gente costuma ser um processo.


 
 
 

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